21 janeiro 2010

Para quê os Santos?


Uma pergunta interessante estampa a capa da revista Veja, na edição 1997 (28/02/2007): "por que o catolicismo precisa de santos"? Como podemos refletir acerca dessa pergunta, sem adotar uma postura apaixonada ou inflamada? Não nos precipitemos nas conclusões. Convido o leitor a examinar as Escrituras, e a perceber a realidade do pensamento divino quanto à questão apresentada.

Quem é santo, para Deus?

Sem nos aprofundarmos na questão teológica, sobretudo considerando a origem desse ou daquele termo, percebemos à luz da Bíblia que "santo" é alguém separado para Deus, e nesse sentido específico, separado do pecado. Numerosas são as referências bíblicas acerca da necessidade de todo crente ser santo (Lv 11:45, Lc 1:74, 1Pe 1:16, dentre outras).

Todos podem ser santos, e devem sê-lo por se tratar de um mandamento divino. E se é um mandamento, Deus dá condições para cumprirmos com sua ordem soberana. Não apenas a partir de atitudes práticas do dia a dia, podemos garantir a santidade em nossas vidas a partir de algo fundamental: a presença do Espírito Santo.

A vida do crente passa por estágios distintos: eleição - justificação (e redenção) - santificação - glorificação, ensinamento esse baseado nos escritos de Paulo. Podemos perceber também que a santificação, ao contrário do que se pensa sobre a salvação, é um processo, não um ato instantâneo, como a revelação da Palavra ao indivíduo e imediatamente a fé dada por Deus se manifesta em sua vida. A santificação depende da comunhão entre o indivíduo e Cristo, o qual desde o princípio já honrou seu compromisso, ao nos santificar e garantir o perdão de nossos pecados.

Ademais, ela é necessária para que Deus trabalhe através de nossas vidas. Assim como um cozinheiro não usa panelas sujas para preparar comida, da mesma maneira Deus não usa utensílios sujos para sua obra, como vaso de honra (2 Tm 2:21). A purificação veio a partir de Cristo, e Deus Pai nos recebeu, desde então, como filhos adotivos, como ramos enxertados na Videira. Em conclusão, eu e você, crente em Cristo, somos feitos santos, por parte de Deus.

Analisando a postura católica acerca dos santos

O ramo católico dedicado ao estudo da vida dos santos é a hagiografia. Ela trata especificamente de divulgar a vida de pessoas cuja biografia traga aos fiéis elementos que sejam dignos de culto. Com efeito, muitos dos estudos encontrados acerca da vida de santos assim considerados pela igreja romana trazem elementos que identificam o indivíduo como alguém portador de virtudes que mereçam algum tipo de homenagem. Na liturgia católica, há um santo para cada dia do ano - e para os restantes, vale o "Dia de Todos os Santos" (primeiro de novembro).

A origem da hagiografia deve-se ao costume, ainda da igreja primitiva, de reunir as histórias dos mártires que poderiam servir de testemunho da atuação de Deus em tempos de crise. Com a Idade Média, e a difusão do catolicismo a partir de seu atrelamento ao Império Romano, passou-se à predominância de uma religião sobre as demais, não mais perseguida, mas que contivesse membros dignos de honra por suas virtudes e feitos. Outras razões também existiam:


O objetivo destas obras era múltiplo: propagar os feitos de um determinado santo, atraindo, assim, ofertas e doações para os Templos e Mosteiros que os tinham como patronos; produzir textos para o uso litúrgico, tanto nas missas como nos ofícios monásticos; para leitura privada ou como textos de escola; instruir e edificar os cristãos na fé; divulgar os ensinamentos oficiais da Igreja, etc. (Dubois, J., Lemaitre, J-L., 1993, p. 74). Desta forma, tais textos eram importantes veículos para a propagação de concepções teológicas, modelos de comportamento, padrões morais e valores. (FRAZÃO DA SILVA, Andréia Cristina Lopes. Hagiografia.


Desse excerto, dessume-se que existem pessoas cujas vidas foram usadas como referencial para estudos, cooptação de ofertas para templos e mosteiros, e sobretudo para o "marketing" católico, diante de nações ainda não alcançadas pelo império. E mais: a vida de tais pessoas era atraente, até demais, para receberem destaque como patronos de templos e mosteiros.

Ora, patronos nós temos: Duque de Caxias é patrono do Exército Brasileiro, Santos-Dumont da Força Aérea, Tamandaré da Marinha; haveria semelhança entre eles e as virtudes dos patronos exaltadas pelas instituições mencionadas? A resposta se encontra num detalhe que, por vezes, passa despercebido: aos santos católicos presta-se culto como forma de alcançar o favor divino. Atrai-se atenção ao indivíduo, não a Deus.

O cristão verdadeiro conta com a oração de seus pares, também chamada de intercessão. Ele, entretanto, faz sua parte, e mantém contato direto com Deus por intermediação única e exclusiva da parte de Jesus Cristo (1 Tm 2:5): um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens.

Servir de exemplo é uma coisa, servir para culto a fim de se obter graça é algo completamente diferente. Uma justificativa apologética católica está na suposta distinção entre "adorar" e "honrar", ou venerar:


Eis os dois sentidos bem indicados pela própria Bíblia: adoração suprema, devida só a Deus; adoração de reverência, devida a outras pessoas. A Igreja católica, no seu ensino teológico, determina tudo isso com uma exatidão matemática. A adoração, do lado de seu objeto, divide-se em três classes de culto: 1. culto de latria (grego: "latreuo") quer dizer adorar - É o culto reservado a Deus 2. culto de dulia (grego: "douleuo") quer dizer honrar. 3. culto de hiperdulia (grego: hyper, acima de; douleuo, honra) ou acima do culto de honra, sem atingir o culto de adoração. A latria é o culto que se deve somente a Deus e consiste em reconhecer nele a divindade, prestando uma homenagem absoluta e suprema, como criador e redentor dos homens. Ou seja, reconhecer que ele é o Senhor de todas as coisas e criador de todos nós, etc. O culto de dulia é especial aos santos, como sendo amigos de Deus. O culto de hiperdulia é o culto especial devido a Maria Santíssima, como Mãe de Deus. (...) Os atos exteriores - como genuflexão, inclinação, etc -, são classificados tendo em vista o "objeto" a que se destinam. Se é aos santos que se presta a inclinação, é claro que se trata de um culto de dulia. Se é a Deus, o culto é de latria. (FRENTE UNIVERSITÁRIA LEPANTO. Em Defesa da Fé - Página de Apologética Católica - Intercessão dos Santos - Vivos após a Morte, Relíquias, Cultos.



Tentar desdobrar a adoração entre dulia, hiperdulia e latria, honestamente, não é a melhor resposta que se podia esperar. Pela explicação dada, não se chega a lugar algum, se não à conclusão de que são todos a mesma adoração dada a indivíduos e a dada a Deus. E sabemos, de antemão, que somente a Deus devemos dar culto, e que nosso Deus é ciumento, não dividindo sua glória a ninguém.

Se há essa distinção entre latria, dulia e hiperdulia, por que então rezar diante de uma imagem e pedir-lhe favores? Tudo isso por conta da crença de que os santos estão vivos, sendo que a Bíblia categoricamente demonstra que estes somente ressuscitarão quando Cristo voltar novamente? Por que então se fazem honrarias a santos, conferindo-se-lhes relíquias, adornos, procissões, incenso, objetos de verdadeira adoração? Por que os adesivos "Tudo por Jesus, nada sem Maria", ou "Peça à Mãe que o Filho atende" são tão difundidos?

Nota-se então algo de errado: tanto a latria, como a dulia e hiperdulia têm a mesma raiz: mascarar a idolatria, não citada propositalmente pelo autor do texto de apologética católica. Idolatria é o desvio do culto a Deus, por quaisquer formas. Não se percebe Deus como o centro de tais práticas, e sim fomentar a crença de que pessoas, que foram tão pecadoras como nós o somos, possuíram algo de "especial" em nosso lugar para interceder por nós.

Mascara-se um politeísmo, herança greco-romana, para afirmar algumas concepções: Deus é tão etéreo que não se preocupa com seus problemas, Deus é tão distante de pessoas sem virtudes e pecaminosas, e que a intercessão de "santos" é necessária para se chegar a Deus. Com essas concepções radicalmente distantes das Escrituras, vê-se que Jesus é novamente deixado de lado, sua obra para eles restou-se incompleta, e os santos de repente são dotados de "superpoderes", maiores que os dos meros mortais.

Acaso o Espírito Santo estaria dividido, operando mais em uns do que em outros? Cristo disse que poderíamos fazer coisas ainda maiores do que ele, pois ele estava indo para o Pai. E quem opera as bênçãos é o Espírito Santo, que distribui seus dons aos crentes, e a ninguém impropera. A origem dos milagres é Deus, sua soberana vontade. Qualquer coisa além disso vem do maligno. O fato, entretanto, de eu poder fazer mais coisas do que Jesus, não me torna maior que ele. Não é o que parece quanto aos santos católicos, por diversas vezes representados, se não em pé de igualdade com Jesus, ainda maiores que este, como nos ícones ortodoxos...

Para pedir favor de Deus sobre determinada questão, devo erguer meus olhos para vê-lo. Por que então fitar uma imagem? Por que prestar adoração a pessoas que falharam como nós falhamos? Qual a origem de tudo isso, senão a idolatria? Acaso podem o barro ou o metal responder?

O problema da edificação de santos: o bezerro de ouro

Em Êxodo, capítulo 32, trata-se especificamente do desvio de foco do homem em relação a Deus. O povo, desejando prontamente uma resposta de Moisés, que tardava em descer do monte Sinai, decidiu construir um bezerro de ouro, que lhes fosse guia em retorno ao Egito. Para o mesmo, prestou-se culto, adornou-se e fez-se festa.

Algo parecido com hoje em dia?

O homem sem Deus, ou que julga que Deus o abandonou, ou que está distante dele tal qual parecia longe o cume do monte Sinai, ergue para si mesmo um deus que não fala, não escuta, mas que representa uma aspiração sua, particular. O bezerro de ouro continha a pretensão máxima, a "graça" que os israelitas queriam ver alcançada: livrar-se do deserto imposto por Moisés e voltarem para a terra do Egito, cujo pão e cebolas não faltavam. Vida essa que lhes traria morte.

De fato, o salmista declara que o idólatra se torna semelhante ao seu ídolo: vazio, inoperante. O ídolo faz para o indivíduo suas vontades, desde que haja uma recompensa na forma de culto. O ídolo é atraente, seu culto é rapidamente difundido, pois ele consubstancia os anseios de toda uma comunidade. O ídolo pode ser visto, tocado, seu poder aparentemente é palpável. Só que ele traz morte, da qual ninguém dos idólatras escapou. Morte física, por vezes, e espiritual também.

Devemos ser como o ídolo? Ou ser santos para com Deus, nós mesmos?

O santo católico precisa de um longo e dispendioso processo para ser considerado como tal. Furos por vezes se encontram em suas biografias, ainda que ele mesmo represente um ideal, uma virtude. Já o santo, para com Deus, é lavado com o sangue mais puro que existe. Ele escapará da segunda morte, pois suas vestes foram lavadas pelo sangue do Cordeiro, Jesus, como se afirma no final de Apocalipse. Ele não requer nem ouro, nem prata, para adentrar à presença de Deus, e com ele conversar livremente em oração, pelos méritos de Cristo já alcançados.

Assim sendo, para quê os ídolos? Para que um "santo", para o Brasil? Um referencial nacional no Vaticano? Alguém a quem os brasileiros devam prestar culto? Não, pois bendito o Senhor que já tem alcançado milhões de vidas no País, que sabem discernir a vontade de Deus para todos nós: a santificação das nossas próprias vidas - não a de Frei Galvão - pois sem isso jamais veremos a Deus, face a face.

Conclusão

Conclamo a você, leitor, para que reflita sobre essas palavras. Precisamos nós de santificação, e que jamais a biografia de quem quer que seja deve tomar o lugar de Deus em nossas vidas. Isto é idolatria, seja ela nas formas de latria, dulia ou hiperdulia.

Que sejamos nós contados com os salvos naquele dia, podendo dar testemunho de que, com nossas atitudes e palavras, pudemos pregar que "feliz é a nação cujo Deus é Senhor", não um "santo" feito assim por dinheiro e interesses, ou uma "senhora", que foi serva eleita de Deus, humana e pecadora, para dar à luz ao nosso Salvador.

Fonte: Militar Cristão